quinta-feira, 29 de agosto de 2013

CRÓNICA - Caminho do Algarve 2013

De Ansião a Sagres pelo centro alentejano, foi o desafio de Norberto Marques e Ramiro Luís em percorrer de bicicleta BTT os cerca de 800 quilómetros em autonomia por caminhos de terra e estradas rurais da lezíria ribatejana, as planícies alentejanas, serras e litoral Algarvio. O principal objectivo foi delinear geograficamente o Caminho Português de Santiago a partir de Tavira, igreja de Santiago, um dos principais pontos de partida desta rota de peregrinação. Depois de um exaustivo estudo sobre a principal Via da Romana (Faro/Évora) passaria por definir um trilho desenhado previamente que passasse pelas localidades referenciadas através de mapas antigos e locais onde se podem encontrar alguns vestígios desta época. O restante trabalho era fazer realmente o teste, ligando a cidade de Évora a Santarém ao caminho medieval já definido e marcado como tal entre Lisboa e Santiago de Compostela, em Santarém pode optar-se pela variante Caminho de Fátima. Este itinerário fica agora publicado em GPS proporcionando a todos aos amantes do BTT, cicloturismo ou mesmo pedestre tirando assim partido desta maravilhosa viagem seja por motivos desportivos, religiosos, culturais ou mesmo de puro lazer.

A Viagem

1ª Etapa – Ansião a Santarém, 110 km
Seguindo literalmente pelo Caminho de Português de Santiago até Tomar desde a serra de Alvaiázere até Soianda onde fizemos uma pequena paragem em  para tomar café, por quelhas e caminhos rurais, passando na margem do rio Nabão até à cidade dos Templários, após Tomar, pela inconveniente estrada principal até Santa Cita e Asseiceira onde se entra num caminho difícil por pinhal e eucaliptal com muito seixo até a Atalaia, depois segue-se por estrada até a V.N. Barquinha, novamente por estradão e uma pequena pausa para apreciar na famosa Quinta da Cardiga entrando em plena lezíria ribatejana. Golegã cerca da 13h30, ponto de paragem para almoço, mais a diante à saída, desfrutamos do maravilhoso parque de merendas, dali até a Santarém é um saltinho através de grandes campos de milho e vinha em rolantes estradões, após a Ribeira de Santarém segue-se a curta subida até à cidade. Fim da etapa pelas 18h preparar a pernoita, depois de procurar albergue optámos por uma pensão modesta, anda deu tempo para uma pequena visita à cidade e conhecer alguns locais como o jardim das Portas do Sol.



2ª Etapa – Santarém a Évora, 140 km
Pela fresca dos milheirais até Porto de Muge local onde deixámos o Caminho de Santiago, atravessamos o Tejo pela ponte Rainha D. Amélia até Muge seguindo-se Glória do Ribatejo, paragem no Café Central e voltamos a entrar na terra batida quase até Coruche onde procuramos a loja de bicicletas para reparar uma pequena avaria, problema resolvido, deixamos aqui o nosso agradecimento à loja Tó-Bikes. Passeio guiado por um companheiro do BTT até ao restaurante por este indicado para um apetitoso almoço. Até Lavre o calor apertou e paramos nas bombas de combustíveis perto de Cortiçadas, seguimos pelo caminho dos alemães até Ciborro e São Geraldo cruzando a EN2, primeira referência de indícios romanos, local onde fomos impedidos de seguir por terra junto à ribeira de Lavre devido a estas grandes herdades estarem de portões fechados (mesmo sendo caminhos públicos), o problema viria também a seguir na Quinta das Oliveiras em Carias. Rolando por estrada até a Évora ficando com a sensação de ter perdido caminhos deslumbrantes. Chegada a Évora ao cair da noite era hora de procurar o merecido descanso desta longa e quente etapa, foi fácil encontrar alojamento, jantar e um bar típico para refrescar!


3ª Etapa – Évora a Beja, 94 km
Depois de Évora não encontrámos grandes soluções, após a passagem discreta pelo solar do Monte da Flores deparávamos-mos com mais portões fechados e ter mais uma vez optado por estradas secundárias que também foi muito agradável de percorrer. Paragem em Aguiar para um pequeno abastecimento e já perto de Viana do Alentejo foi a chegada à igreja de Nossa Srª D’Aires e seu santuário, local mítico de religiosidade onde fizemos devida visita a este templo cheio de história, aqui se realiza em Abril a mítica Romaria a Cavalo proveniente da Moita. Almoço no restaurante Três Bicas e uma sesta no meio da praça, seguimos pela via romana até Albergaria dos Fusos passando pelo imponente Palácio de Água de Peixes, Alvito que pertenceu à Casa de Bragança e ao Duque do Cadaval (Sec. XII), completamente ao abandono. Após a referida herdade encontramos a ponte romana de Vila Ruiva, depois desta localidade entramos na vila de Cuba onde fizemos mais uma pequena pausa devido ao calor que se fazia sentir. Por um caminho rural seguimos até Beja onde tivemos a oportunidade de deslumbrar algumas represas de regadio. No final desta etapa ainda tivemos a oportunidade de desfrutar da noite boémia na calma cidade capital do Alentejo.

             

4ª Etapa – Beja a Ameixial, 110 km
A etapa que mais gostamos devido a magníficas paisagens e o fora de estrada por longos campos de cultivo de cereais e pastorícia do Baixo Alentejo. Após a saída de Beja segue-se um longo estradão de cerca de 22 km até a Albernoa e continuando até a Entradas, Castro Verde local de paragem para almoço, quem passa pelo IP2 não se apercebe desta magnifica localidade com o museu da Ruralidade e Igreja Matriz de Santiago. Entrada na plena ruralidade, uma ligeira queda sem consequências graves, valeu o “kite” de primeiros socorros! Visita obrigatória das aldeias típicas de Rolão e Viseus onde fizemos mais uma pequena paragem e falar com os residentes locais na pequena taberna, cujo deixamos os nossos agradecimentos a senhora que nos ofereceu uma bela melancia fresca. Seguindo-se as Minas de Neves-Corvo a maior exploração mineira da Europa na extração de cobre e zinco, este troço poderá estar condicionado no futuro devido à construção de um novo lavador (Açude de águas residuais da mina) a opção será seguir por estrada entre Neves da Graça até Semblana e apanhar de novo o trilho no alto de Monte Branco. Nota: Toda esta área ao longo de vários quilómetros está sob vigilância de segurança das minas. A partir desta zona a altimetria começa a ser mais serrana a partir da pequena aldeia de Santa Cruz é a descida até à fronteira com o Algarve na ribeira do Vascão assim entrando na serra do Caldeirão, a etapa acabou no alto do Ameixial onde pernoitamos. Os nossos agradecimentos ao Sr. Presidente da Junta Abílio Vargas de Sousa por nos ter disponibilizado o balneário do campo de futebol onde passamos a noite após uma simpática jantarada no restaurante local.


5ª Etapa – Ameixial a Tavira, 86 km
Em plena Serra do Caldeirão descemos até à ribeira em Ximeno ladeando esta por trilhos técnicos com muita pedra até ao estradão que nos levou a Sarnadina em pleno coração da serra, fácil transição apesar do sobe e desce até Califórnia e Portela do Barranco com paragem para uma fresquinha numa magnifica esplanada, estrada de asfalto muito plana em plena serra, seguindo-se da passagem do vale do Freixo no qual a descida com a subida para Salir é de 10% mas vale a pena esticar o musculo pela paisagem! Em Salir podemos apreciar as ruinas do velho castelo e a igreja matriz de São Sebastião freguesia importante de Loulé também referenciada como o principal cruzamento de vias romanas no centro algarvio. A partir daqui a altimetria baixa consideravelmente, o almoço foi em Querença terra do medronho e a sesta na fonte Filipe, deixando o concelho de Loulé por trilhos e campos da serra até São Braz de Alportel onde cruzámos mais uma vez a EN2 (km727) a partir daqui o deslizar suave até Santa Catarina da Fonte dos Bispos descendo ao vale do rio Séqua na serra de Tavira, passagem indispensável pela fraca paradisíaca do Pego do Inferno que agora se encontra sem estruturas de apoio devido ao grande incendio de 2012 nesta serra. O final da etapa terminou na igreja de Santiago em Tavira, local de início do Caminho Português de Santiago interior, daqui o caminho encontra-se relativamente marcado com setas amarelas via Vila Real e Castro Marim julgamos que até Évora, iniciativa do grupo de escuteiros de Tavira segundo informações de um habitante local.

Terminamos assim a primeira parte desta viagem e aproveitando o período de férias, uma curta estadia no Camping da Ilha de Tavira durante os seguintes três dias.

6ª Etapa – Tavira a Armação de Pera, 100 km
Regressando às pedaladas, iniciámos esta etapa seguindo pela Ecovia do Algarve, um percurso marcado por todo litoral algarvio, não seguindo à risca este traçado pois pretendíamos aproveitar ao máximo e conhecer alguns locais junto à costa. Um percurso muito urbano principalmente a partir de Faro e Albufeira. Vale a pena fazer uma visita à Praia do Barril, cemitério das âncoras e conhecer a sua história, também a Sé de Faro e a sua igreja na praça do município também um importante ponto de partida para os Caminhos de Santiago, mais a frente em Montenegro encontramos o local ideal para o almoço. Durante a tarde contemplamos um magnífico trilho em plena Ria Formosa até à Quinta do Lago e Vele de Lobo, uma pequena pausa no centro histórico de Albufeira e saída pelo novo porto de pesca e marina. Outro local também interessante é a barra da Praia dos Salgados. Já próximo de Pera encontramos um camarada do BTT que se disponibilizou a viajar connosco pelo melhor caminho até ao nosso dormitório, os nossos agradecimentos a este pela dica e pela camaradagem.


7ª Etapa – Armação de Pera a Sagres, 110 km
Continuando por alguns acessos da Ecovia que nesta etapa se apresenta num “zig-zag” constante passamos por locais magníficos que muitos veraneantes não conhecem. Como a lezíria da Ria do Alvor e as arribas da Praia da Luz. Até Portimão seguimos pelo Carvoeiro e Ferragudo nesta zona andamos um pouco desorientados pois a via segue para Lagoa (EN125) a qual não era a nossa intenção, a Rocha e o Vau foi o destino de mais uma visita e arriscar a passagem na falésia, após a Ria de Alvor a paragem para o almoço no restaurante do estádio do clube de Odiáxere onde fomos muito bem recebidos. Caminho muito agradável e a zona piscícola de viveiros do marisco em Vale de Lama e Meia Praia até Lagos, a partir daqui começaram as dificuldades num frenesim de sobe e desce constante: Luz, Burgau, Salema e Figueira local para mais uma pausa e uma fresca. Variante interior por Vila do Bispo onde começa um longo estradão em terra quase até ao destino o Cabo de São Vicente, neste encontra-se o marco da Ecovia indicando o km 0 junto ao farol.



Aqui terminava o grande objetivo desta verdadeira aventura!
O Parque de Campismo ali por perto foi a nossa casa para passar a noite. Neste encontramos um grupo de três amigos do pedal que também em viagem cicloturista provenientes de Lisboa, se empenhavam num outro desafio, os caminhos da Costa Vicentina (cumprimentos a eles). Após o jantar uma visita ao andamento noturno desta bela localidade, Sagres!

8ª Etapa – Sagres a Lagos, 48 km
De regresso a Lagos a ordem dos trabalhos era a visita à Fortaleza de Sagres onde conhecemos mais dois amigos do Norte nas mesmas andanças. Depois de pequeno convívio “BTTista” dirigimo-nos para a Ponta de Sagres para apreciar as suas arribas imponentes que não deixam ninguém indiferente. De volta, foi pedalar contra o vento até Vila do Bispo seguindo para a serra da Raposeira até Budens. Na zona agrícola de Alagoas encontramos um pacato restaurante onde almoçamos (Mata Porcas). De novo na Luz era hora para uma paragem e talvez uma sesta no Boavista Golf Resort. Já em Lagos onde terminou a grande viagem a proposta era arrumar as máquinas e encontrar os aposentos para passar a noite.
Deixamos aqui os nossos agradecimentos ao nosso amigo e conterrâneo Sr. Mário proprietário da Marisqueira Os Arcos em Lagos que nos serviu um maravilhoso jantar e também ao amigo Juiz Silva que sempre nos tem recebido e prestado grande apoio nas nossas deslocações a esta cidade.
A viagem de regresso a casa foi de comboio a partir de Lagos pela manha do dia seguinte, com escalas em Tunes e Lisboa até Pombal contornando assim controvérsia relativamente ao transporte de bicicletas nos comboios de Portugal passando por empacotar as “bicis”.

Adoramos esta aventura e recomendamos, foi uma magnífica forma de passar umas belas férias!



Todas as fotos da viagem:

1 comentário:

Lopes disse...

Parabéns pela aventura, numa próxima contem comigo, abraço :D